López de Heredia Revisitados

Não tenho muito mais a acrescentar ao muito que já escrevi sobre López de Heredia, sou um fan assumido destes vinhos e do trabalho desta adega e por esse motivo reservo especial atenção ao que vão lançando para o mercado. Nos últimos tempos tive a oportunidade de provar vários destes vinhos, na sua grande maioria colheitas recentes no mercado, o que neste produtor quer dizer vinhos com mais de uma década. Para mim continua a ser a grande referência dos vinhos da Rioja e uma marca incontornável no mundo dos vinhos. Passemos aos ditos…

VIÑA TONDONIA RESERVA BRANCO 2003

Os Reserva Branco da Viña Tondonia, a par dos Grande Reserva, são os vinhos deste produtor que atingiram maior culto. Mesmo com os preços especulativos a que chegaram, são muito difíceis de encontrar, tornando-se cada vez mais autênticas peças de colecção. Este 2003 chegou ao mercado em 2016, portanto 13 anos depois da colheita e foi bebido agora, quase 20 anos depois. Todo o processo de vinificação é o mais tradicional possível, leveduras naturais, transfegas manuais, sem filtração e o já referido longo estágio em barrica e depois em garrafa. O facto do vinho ter passado tanto tempo em madeira e não estar marcado pela mesma e de necessitar de oxigenação para se mostrar na plenitude, são duas características destes brancos que mais me impressionam. Há quem lhe chame o mistério da Rioja, como a lenta oxidação da casta Viura, envelhecida por muito tempo em cave, começa por mostrar-se um vinho mais maduro, para depois revelar uma complexidade e frescura que fazem destes vinhos únicos e tão procurados. Foi o que aconteceu com esta garrafa, que começou por dar sugestões de um vinho mais evoluído, para depois de algum tempo decantado, se revelar numa dimensão incrível, vivo e cheio de frescura. 2003 não foi um grande ano na Rioja, mas mesmo assim este Tondonia estava fenomenal, a dar uma prova extraordinária.

VIÑA TONDONIA GRAN RESERVA ROSÉ 2011

O Tondonia Rosé será porventura o vinho menos conhecido de López de Heredia. Durante a década de 2000 só foram produzidos 3 colheitas, 2000, 2008 e 2010, começando depois a década seguinte com a edição do 2011. À semelhança dos brancos, também este rosé tem uma grande procura (as 12.000 garrafas produzidas tornam-se escassas para tanta demanda) e também ele tem um largo estágio antes de chegar ao mercado. Para ser classificado na Rioja como um Gran Reserva Rose o vinho tem de ter pelo menos 4 anos de estágio (e destes pelo menos 6 meses em barrica), mas este Tondonia, com 4 anos de estágio em barrica seguindo-se mais 5 em garrafa, ultrapassa largamente estes períodos. Impressionante, não? O lote é composto por 60% de Garnacho, 30% de Tempranillo e 10% de Viura, tudo uvas provenientes da Vina Tondonia. A prova mostra-nos um rosé com uma cor de casca de cebola muito bonita, com um perfil único, de grande carácter, com sugestões de fruta vermelha madura, envolvidas pelas complexas notas de estágio, onde sobressaem os clássicos aromas vegetais e terrosos dos Tondonia. A boca consegue aliar muita presença, complexidade, mas ao mesmo tempo elegância e uma leveza transmitida por uma acidez fina e muito bem proporcionada. Sendo esta a referência do produtor que conheço pior, não consigo dizer se é uma boa colheita comparativamente com outras, mas independentemente disso, é um grande vinho, mesmo para quem não é um fanático por rosés.

VIÑA CUBILLO 2013

O Viña Cubillo é um excelente exemplo da valorização que os López de Heredia tiveram nestes últimos anos. O “entrada de gama” da casa, criado para ser um vinho mais simples, perfeito para acompanhar as famosas tapas riojanas, durante muitos anos esteve no segmento dos 10/11€, actualmente já chega aos 15€ e vamos lá ver onde vai parar. O lote das castas tradicionais Tempranillo (70%) e Garnacho (20%), temperado com um pouco de Mazuelo e Graciano, provenientes da vinha Cubillo, uma das 4 de Lopez de Heredia, dão origem a um vinho que apesar de classificado de Crianza tem três anos de estágio em barricas usadas. Mesmo assim é o vinho com menos estágio do produtor, apelando a uma fruta mais franca e um estilo menos complexo. Este 2013, o último a chegar ao mercado, o que para um entrada de gama não está mal, terá sido provavelmente o Cubillo que menos gostei até hoje. A fruta é mais madura que o habitual e as notas de baunilha do estágio em carvalho americano estão mais instrusivas que o costume, o que acaba por desiludir um pouco. Não é um mau vinho, longe disso, mas está a anos luz dos melhores Cubillo, como o 2009 por exemplo, que já dei conta aqui no blog. 2013 foi uma das colheitas mais difíceis dos tempos recentes na Rioja, com fortes chuvadas na primavera e temperaturas baixas, que atrasaram muito o ciclo da videira, o que levou a um trabalho suplementar nas adegas para se fazerem os vinhos, talvez isso explique alguma coisa em relação a este Cubillo.

VIÑA BOSCONIA 2008

A vinha Bosconia viverá sempre na sombra da mítica Vina Tondonia, de onde saem os topos de gama da casa, mas não é por isso que não produz também vinhos de grande qualidade. Curiosamente, ao início, os Bosconia eram desenhados para exprimir a elegância da Borgonha (daí a garrafa borgonhesa, em contraste com a bordalesa Tondonia) e até levavam Pinot Noir no lote, mas com o passar do tempo os papéis mudaram e hoje o estilo é o inverso. O Bosconia 2008 é um lote de 80% de Tempranillo, com 15% de Garnacha e 5% de Graziano e Mazuello, que faz um estágio de 5 anos em barricas de carvalho americano, produzidas na propriedade (das poucas que ainda mantêm tanoaria própria) e depois quase mais 5 anos em garrafa. Pareceu num registo mais fechado que as colheitas anteriores, mais austero, de corpo médio e taninos polidos, que começa a expressar-se apenas depois de algum tempo de decantação. É um vinho delicioso, cheio de sabor, com uma presença de boca notável, onde uma acidez franca equilibra o conjunto e lhe proporciona um final longo e persistente. Tudo indica que será um vinho para aguentar muitos e bons anos e talvez ainda vá a caminho do seu melhor.

VINA TONDONIA RESERVA TINTO 2008

Terminamos com outro tinto da colheita de 2008, um bom ano na Rioja. Em Portugal estamos habituados a ver reservas tintos nas prateleiras poucos meses depois da colheita, o que contrasta com este Tondonia, que chega ao mercado mais de dez anos depois. É a grande referência da casa, um vinho muito consistente, que de colheita para colheita nunca desilude os muitos consumidores fidelizados. O lote e o método de produção é em tudo idêntico ao Bosconia, levando apenas uma menor percentagem de Tempranillo (75%) e fazendo o estágio em barrica durante 6 anos. Muito elegante no estilo, fino, sério, seco, um Tondonia maravilhoso, com as notas terrosas e de estágio a criarem um tinto de grande classe e precisão. À semelhança do Bosconia, também aqui iremos ter vinho para muito tempo, assim lhe consigamos resistir. Tudo normal, portanto, no reino de López de Heredia.

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