Quinta do Pôpa : Dare to Dream

Criatividade e irreverência sempre foram uma imagem de marca do projecto duriense dos irmãos Stéphane e Vanessa Ferreira. Hoje em dia o sector do vinho está inundado de criatividade e irreverência, com rótulos e marcas cada vez mais ousados, onde até as capas das revistas da especialidade procuram seguir esse caminho. O badass está na moda e ninguém quer ficar de fora. Mas em 2012 (quase uma década atrás), quando a Quinta do Pôpa surgiu no mercado com as suas Lolita & Milf, o sector do vinho português ainda navegava em águas bem bolorentas e estes rótulos disruptivos causaram alguma risada e franzir de sobrolho. É por isso que devemos olhar com naturalidade para quando a Quinta do Pôpa lança uma caixa de vinhos experimentais, onde busca novos caminhos, pois isso sempre fez parte do seu adn.

Chama-se Dare to Dream, vem numa caixa toda catita que recria uma mala de viagem e mostra-nos uma linha experimental de vinhos que abre uma nova porta no percurso deste produtor. Para começar, foram lançados três vinhos, um branco de curtimenta, outro branco vinificado em ânfora de barro e um tinto também vinificado em ânfora de barro. O objectivo não foi surfar a onda de popularidade que estas novas tendências de vinificação colhem no mercado actual, mas sim explorar novos caminhos, novas opções de vinificação e com isso obter novos perfis de vinho. A prova disso é a quase ausência de menção ao tipo de vinificação nos rótulos destes Dare to Dream. Esta é uma gama de vinhos para ter continuidade, já com novas colheitas na calha, desta vez já com a responsabilidade enológica de Carlos Raposo, o novo enólogo da Quinta do Pôpa.

Pôpa Curtimenta branco 2019

Vinhas velhas de Viosinho e Verdelho, pequena curtimenta, fermentação espontanea com leveduras indígenas e estágio em barricas usadas de 225 litros e sem qualquer aplicação de sulfuroso. O resultado é um branco muito focado e elegante, com uma excelente presença de boca e com as notas originadas pela curtimenta a não se sobreporem à fruta, permitindo realçar o aroma fresco a citrinos. Não estamos perante um orange wine, mas sim perante um branco que teve alguma curtimenta, onde se conseguiu um excelente compromisso entre esse tipo de vinificação e o lado mais frutado e limpo do vinho. Tem um ligeiro tanino e uma excelente acidez, que lhe dão carácter e frescura, proporcionando um branco de grande detalhe. O vinho ainda está jovem, vai crescer imenso na garrafa, mas se o consumirem já não o deixem de decantar, pois vai ganhar imenso. Gostei muito e foi o meu favorito dos três.

Pôpa Amphora branco 2018

Mistura de vinhas velhas plantadas em altitude, fermentação em ânfora, seguida de estágio em borras totais com algum contacto pelicular dentro da ânfora. Mais carregado na cor e encorpado que o Curtimenta, é um branco que tem ligeiras notas originadas pelo contacto com o barro, bem complementadas por sugestões de fruta branca madura e mel. O carácter da ânfora está presente, sem passar por cima do resto, num branco cheio, untuoso, com volume e boa acidez, terminando com um ligeiro amargo típico da maceração pelicular. As ânforas de 1000 litros (revestidas com resina de pinho) que estão a ser utilizadas nestas vinificações, foram adquiridas recentemente na região de Leon, em Espanha e são idênticas às utilizadas pelo conhecido produtor espanhol, Raul Pérez.

Pôpa Amphora tinto 2018

Vinhas Velhas de Touriga Nacional, fermentação e estágio em ânfora. Foco na fruta vermelha madura e algum floral, com um aroma muito fiel à Touriga no Douro, espevitada por umas refrescantes notas vegetais de eucalipto. A boca não mostra muito carácter da ânfora, apesar de se perceber a sua presença através de uma rusticidade que combina bem com o perfil do vinho. Está ainda muito jovem, com muita presença frutada, mas com uma acidez bem presente que augura um bom envelhecimento em garrafa.

Em jeito de conclusão, fica-se com a ideia que não houve intenção de marcar muito os vinhos com os estilos de vinificação, ou talvez o objectivo seja mesmo ir avaliando os resultados passo a passo, até se chegar ao perfil pretendido. O curtimenta saiu grandioso, sério, preciso, um grande vinho, não sei se o objectivo é manter este perfil, mas se for já está muito bem conseguido. Nos ânforas penso que a ideia é evoluir para um perfil onde o carácter do barro se faça sentir mais, mas essas serão respostas que iremos ter nas próximas colheitas, já pelas mãos de Carlos Raposo. Para já, três excelentes vinhos, cada um no seu estilo, que poderão ser adquiridos em conjunto na “mala de viagem” Dare to Dream, ou individualmente pelo preço de 29,50€ cada.

Nota: Os vinhos foram oferecidos pelo produtor.

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