Herdade Grande – o Tinta Míuda e outras novidades

A Herdade Grande foi durante muito tempo um produtor fora do meu radar e a explicação que encontro para o facto é por ser alentejano. Na verdade só nestes últimos anos comecei a dar a devida atenção à região do Alentejo. Quando comecei a interessar-me mais seriamente por vinhos não era cool gostar de vinhos alentejanos, estavamos em plena era dos vinhos encorpados, extraídos, com muito álcool e muita barrica e isso acentuava-se na região alentejana. Bebia alguns clássicos, uma ou outra coisa mais, mas não era um grande conhecedor sobre a generalidade dos vinhos produzidos na região. Mais tarde, com o estilo dos vinhos a aligeirar (entravamos na era da acidez) e passada a fase da ditadura dos gostos da tribo, comecei então aos poucos a desbravar os vinhos alentejanos e a descobrir coisas que gosto muito. Hoje talvez ainda não possa dizer que o Alentejo é uma das minhas regiões favoritas, até porque não é fácil generalizar uma região tão grande que produz tanto e tão diferente vinho, mas decididamente que tem cada vez mais vinhos nos meus tops de preferências. Uma das mais recentes descobertas têm sido os vinhos da Herdade Grande, que me foi despertada pelo seu branco de talha de quem me apaixonei à primeira vista.

a Herdade Grande é uma propriedade familiar situada na Vidigueira que acabou de celebrar em 2020 o seu centenário. Fundada pela família Lança em 1920, tem uma forte tradição no sector agrícola e na viticultura, sendo a produção de vinho a sua maior aposta a partir dos anos oitenta. Foi nessa altura que António Lança, o actual patriarca da família, decidiu restruturar as vinhas da herdade, tratando das existentes e plantando novas variedades, criando assim um património rico de castas que perfazem a actual mancha de 60 hectares. Mais tarde, no final dos anos noventa, a Herdade Grande começou a engarrafar com marca própria e hoje, gerida por Mariana Lança, a quarta geração da família, é um dos mais antigos projectos familiares da região. A enologia desde 2018 é da responsabilidade de Diogo Lopes.

De há uns tempos a esta parte a Herdade Grande tem tido a amabilidade de me enviar os seus novos vinhos e dessa forma tenho tido a oportunidade de acompanhar a evolução do seu trabalho. Sempre que possível tento provar estes vinhos entre amigos com diversos niveis de conhecimento vínicos, para desta forma ter acesso a uma opinião mais real, que não a da bolha dos especialistas. As impressões têm sido boas. Dentro de um portefólio tão alargado, temos vinhos para todos os gostos, mas pessoalmente tenho ficado muito bem surpreendido com a evolução dos vinhos brancos. Alentejo é terra de tinto, já se sabe, e por muito que os hábitos de consumo se alterem ainda existe um grande estigma em relação a isto, mas os brancos que a Herdade Grande está a produzir não envergonham em nada a região. Pelo contrário, abrem uma nova janela a apreciadores que não estão habituados a encontrar no Alentejo perfis tão frescos e focados. Tenho-me tornado cliente de alguns destes vinhos, como por exemplo o branco de talha, que é definitivamente um dos meus brancos de talha favoritos, mas também do Reserva Branco, ou do recente monocasta de Tinta Míuda, que serviu de mote para esta publicação. Passemos às provas…

Começo por duas novidades que chegaram ao mercado recentemente, os monocastas Tinta Miúda e Alicante Bouschet. O Herdade Grande Tinta Miúda 2020 é um bom exemplo da visão experimentalista de António Lança enquanto agrónomo. Depois da Sousão, da Rabigato e da Viosinho, temos aqui o resultado da aposta noutra casta improvável no terroir da Vidigueira. Aliás, a Tinta Miúda a solo é pouco vista e contam-se pelos dedos os monovarietais existentes. Vista como uma casta para temperar lotes, mostra-se aqui num perfil surpreendente. Com fermentação em lagares de inox e 12 meses de estágio em barrica, temos aqui um tinto que se bebe com uma facilidade tremenda. Puro, limpo, focado, com uma presença de boca sedutora e uma acidez valente a meter todo o conjunto no lugar. Que grande estreia. Este é daqueles para ter na garrafeira e acompanhar nos próximos anos. A edição é limitada a 1400 garrafas e o pvp é de 23€. Já o Herdade Alicante Bouschet 2020 tem um estilo mais cheio e encorpado, num perfil de fruta preta madura e carregado na cor, como é apanágio da casta. Teve o mesmo tratamento que o Tinta Miúda, com fermentação em inox e estágio de 12 meses em barrica. Os fans dos alentejanos pujantes e intensos vão ter aqui a sua praia. 1400 garrafas a um pvp de 27€.

Lançados há um pouco de mais tempo, temos outros dois vinhos que complementam o portefólio de monocastas da casa, o Herdade Grande Roupeiro Vinhas Velhas 2020 e o Herdade Grande Sousão 2018. O Roupeiro provém de uma vinha com cerca de 40 anos, a mais antiga da propriedade. 50% das uvas fermentam em barrica com batonnage durante 7 meses, enquanto que as restantes fermentam em inox, fazendo também batonnage durante o mesmo período. O resultado é um branco frutado, equilibrado entre a fruta e acidez, que aqui oferece um registo da casta elegante e de boa persistência. Já o Sousão – também uma inovação no Alentejo – à semelhança da colheita anterior, mostra um perfil muito próprio da casta. Frutado e encorpado, com as sugestões da barrica nova a transmitirem um lado guloso, é bem equilibrado por uma franca acidez. A fermentação é feita em inox e faz estágio de 12 meses em barrica. Ambos têm um pvp 17€.  

Dama do Monte Tinto 2018 e Dama do Monte Branco 2020 – No Verão deste ano foi lançada a nova marca Dama do Monte, uma homenagem à mulher alentejana, que está inscrita no contrarrótulo destes novos vinhos da Herdade Grande. O tinto é um lote de Alicante Bouschet, Syrah, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional e Touriga Franca. Faz estágio de 12 meses em barrica e mostra-se aromático, de taninos presentes, mas macios, terminando com boa persistência. Já o branco é um lote de Verdelho, Viosinho e Antão Vaz, resultando num vinho fresco e elegante, com boa aptidão gastronómica. Os rótulos são da autoria do artista Alcides Malaika e têm um pvp de 9€.

Herdade Grande Clássico Tinto 2019, Herdade Grande Clássico Branco 2021 e Herdade Grande Viosinho 2020 – Outros 3 vinhos lançados no decorrer deste ano, que serviram também para celebrar os 25 anos da marca alentejana. O tinto clássico é um lote de Alicante Bouschet, Aragonês, Touriga Nacional e Trincadeira, enquanto o branco de Roupeiro, Verdelho, Viosinho e Antão Vaz. Estes vinhos são um bom exemplo do perfil que este produtor tem procurado, de alma alentejana, mas elegantes e frescos, que dão muito prazer a beber. Destaque para o Viosinho, uma casta amada do enólogo Diogo Lopes e que aqui na Vidigueira também está a mostrar excelentes resultados. O preço dos Clássico ronda os 8€, enquanto o Viosinho anda pelos 11€.

Herdade Grande Grande Reserva Branco 2020 – Este vinho é outro dos meus favoritos, um branco que alia da melhor maneira o corpo e presença do Alentejo mas com uma frescura e elegância pouco vistas na região. Muito limpo e focado, é um vinho ainda jovem, que vai crescer muito em garrafa. Fresco, com boa presença de boca e uma barrica muito bem integrada, é um branco muito elegante e apurado. Fermentação e estágio sob borras totais durante 10 meses em barricas de 400L de Carvalho Francês (20% novas). É um branco de alma e identidade que prima essencialmente pelo equilibrio. Os mais puristas vão queixar-se que o lote é pouco alentejano, mas a verdade é que o resultado fala por si. Castas: Viosinho (45%), Rabigato (33%) e Arinto (22%), PVP 18,50€.

Termino esta publicação com os novos topo de gama do produtor, os Herdade Grande Garrafeira. Lançados no final de 2021, esta edição única e exclusiva de 650 garrafas homenageia também os 75 anos de vida de António Lança. São vinhos luxuoso, ricos, de grande carácter, complexidade e profundidade. Vinhos que honram as origens alentejanas e os seus míticos Garrafeira, mas sem perder o traço fresco e bebível das mais recentes referências da herdade. O Herdade Grande Tinto Garrafeira 2018 é um lote do melhor Alicante Bouschet e do melhor Sousão, seguindo-se depois o devido estágio em garrafa, a evocar a tradição dos Garrafeira. O Herdade Grande Branco Garrafeira 2019, funde a identidade ancestral das talhas, onde entraram as melhores uvas da vinha velha, juntamente com uma barrica de Viosinho, a melhor barrica da colheita de 2019. São vinhos para os quais não devemos ter pressa em bebê-los, pois o tempo de garrafa só lhes acrescentará virtudes. PVP: 80,00€.

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